26 de mar de 2017

RE-VERSÃO


Respeita tua vontade
criança correndo ladeira abaixo.
Respira a poeira azul do firmamento
sobre teus cabelos ralos.

Destemida despedida
de um velho homem que já não cabe mais
em teu  [novo] formato remoldado.

Oito beijos três abraços líquidas lágrimas e alguns suspiros depois
tudo indevidamente recontado.
Sede dançando sem pudor
podes agora, embora pudesses antes e nem sabias:

paternar a menina sem namorado
seduzir o amigo tenso em teus mamilos
retelhar a casa sem paredes.

Retrata o caminho ainda por traçar
tudo se foi,
tudo há de se renovar,
tudo novamente
mas diferente: tudo é por vir.



11 de mar de 2017

AGUARDANDO


Enternecida hora intervém
entre as diferenças. 
Assomam-se doidas insolentes 
metas.

À essas recorrentes dualidades
socorre algoz desesperança
por sua vez.

Bastaria que à hora propícia
pudéssemos entender o (re)início 
definitivo de qualquer tempo.
-

março 2017

[ imagem daqui ]

AFIRMAÇÃO


7 de fev de 2014

ANOTAÇÕES PARA UM FUTURO POEMA DE VENCEDOR


À sombra do quilômetro 100 da estrada
repousa o viajante. Estrelas ocultas pela luz do sol
observam  seu discípulo cansado.
Nem brisa ou  água,  nem perfume
consolam seu peito recolhido entre
dois braços desarmados pelo excesso de servir.
Seus lábios tocam as palavras do mormaço como uma carta escrita às pressas.
Algumas lágrimas brincam como crianças inconsequentes
entre seus olhos dormentes e o nariz indomado pelo pó dos dias.
[...]
Adiante o leito em pedra da estrada desdobra-se até um infinito visível. E só...
A certeza da noite é o que levanta-o.
[...]
Eis de volta, à estrada o viajante, porque assim é. De Ser.

06.02.2014

25 de jan de 2014

BURACO NEGRO



Num tempo determinado seremos conduzidos
qual dúzias de cordas de apertar.
E embora nem somente a isso reduzidos
no espaço lançados,  faremos despertar   

a demanda de feixes na paveia dispersa.
E sendo mais a força do nó que a corda
no tempo universo da confusão imersa
reataremos a primeira ordem à borda.

Lançados puxados trançados atados
em missão sublimada antes do derradeiro
e absoluto nada!

O nada absoluto
tecido entre a busca do sentido verdadeiro
no emaranhado de presentes e passados.

24.01.2014

24 de jan de 2014

POESIA NÃO É PRA QUALQUER UM




Um dia eu disse ao meu avô que pensava em ser poeta.
Meu avô era um homem prático e me olhou desalentado.
Achei que ia dizer que eu não sabia fazer poesia.
Mas ele me perguntou como eu ia fazer para sustentar a família.
Meu avô me fez desistir da carreira de poeta antes dos meus primeiros versos sérios serem criados.
Desde então nunca mais pensei em fazer poemas.
Um dia eu disse ao meu avô que eu desistira de ser poeta.
Mas disse também que ainda alguma coisa morava em meu querer. Poesia?
Meu avô se riu, se riu.
Deixe de besteira,  e me deu um tapa, poesia só existe em cabeça de doido.
Aí eu resolvi não enlouquecer.  Virei gente. Desisti da poesia. 

24.01.2014

1 de fev de 2012

POESIA PARA DEPOIS



Agora dormir, poesia para depois
Amanhã, trabalho pesado. Poesia para depois

Lembrar de pegar o açúcar no mercado, poesia para depois
Ontem aquele planejamento adiado, poesia para depois

Vencimento da conta de luz, poesia para depois
Barbeador usado e a lâmina cega, poesia para depois

Tantas rugas no meu rosto, poesia para depois
Contigo outra vez e não digo que te desejo, poesia para depois

Um pouco mais de sal neste ovo frito, poesia para depois
Televisão ligada, sono no sofá, vida besta, poesia para depois

Tem remédio para olheiras de sono? Poesia para depois
Sapo morto na beira da estrada, poesia para depois

Sexo solitário, poesia para depois
Quinta-feira consulta do urologista, poesia para depois

A camisa que eu quero vestir agora está suja, poesia para depois
Passar uma lixa nesses pés, poesia para depois...

[01/02/2012]