01/02/2012

POESIA PARA DEPOIS



Agora dormir, poesia para depois
Amanhã, trabalho pesado. Poesia para depois

Lembrar de pegar o açúcar no mercado, poesia para depois
Ontem aquele planejamento adiado, poesia para depois

Vencimento da conta de luz, poesia para depois
Barbeador usado e a lâmina cega, poesia para depois

Tantas rugas no meu rosto, poesia para depois
Contigo outra vez e não digo que te desejo, poesia para depois

Um pouco mais de sal neste ovo frito, poesia para depois
Televisão ligada, sono no sofá, vida besta, poesia para depois

Tem remédio para olheiras de sono? Poesia para depois
Sapo morto na beira da estrada, poesia para depois

Sexo solitário, poesia para depois
Quinta-feira consulta do urologista, poesia para depois

A camisa que eu quero vestir agora está suja, poesia para depois
Passar uma lixa nesses pés, poesia para depois...

[01/02/2012]

Hidrografia



Antes calmas águas
cortadas em círculos
recebem as pedras como recebo teu corpo

aceito teu barco manso barco sem rumos.


Sou líquido contínuo.
Rio é Verdade,
águas não, afogam
e não mentem.


[ do livro "Confissões"]
(12.02.92)

imagem DAQUI

03/11/2011

TERCEIRO CANTO DO MÊS DE TER PACIÊNCIA

Cedo ainda uma parte de nossa loucura desceu pela janela do outro lado
da rua, do segundo andar sem nossas mãos para guiá-la e sorrindo
de galho em galho antes de corromper-se entre as castas sanidades do dia, sumiu.
Movem-se todas estas montanhas sobre meu ombro onde moras e mesmo assim entre as frestas da jaula ainda respiramos: Louco amor!
O mesmo passo comedido [mastigue-se!] policia cada corredor da casa e vai parando porta a porta como se trouxesse a noite para acortinar suas janelas sonolentas. Passo a passo.
Cedo ainda me debruço sobre nossas saídas e embevecido da paternidade permito lágrimas que observam nossa loucura descendo pela janela do mundo. Vaivaiva menina...





Ilustração DAQUI



23/05/2011

DE APRESENTAÇÃO

Sou um duplo que procura
Outro duplo outra sombra
Outra molécula uma estrutura

Espalha comigo criatura
Flores que fiquem como pés caminhando

Sou duplo e busco e esse pensamento estranho
Dentro de mim como sangue em movimento

Colhamos sinas criatura sintomas
De solidão e toques de carne acesa
Comigo!

Sou um estranho dividendo duplo confisco
Quanto chumbo cabe em ti cabe em mim
Molda-me duplo de nós

Guardemos desejos companheiros desejos
De companhia
Guardados melhores estarão que acompanhando-nos

Sou duplo, um ‘ninguém no plural’
Outro susto esta certeza
Uma palavra constante um silêncio.

(17.01.92)
imagem DAQUI
[]

03/05/2011

MÉDIA


Dança solitária da palavra certa na sala tumultuada dessa aldeia.

Tendo ouvidos dormentes para algumas sílabas tão necessárias outras ecoam firmes em coro.

São elas as células do discurso dourado que pedimos para adorar, crentes
rodopiando entre caos e rotas traçadas no tapete da tumultuada sala.

E a palavra certa sem brilho falso sem marca de identificação sem guia prévio
dança solitária e desapercebida deles todos.


[]

02/05/2011

PAIXÃO SECRETA

No terreiro de tua casa plantei
meus passos dados.
Ali, entre aquelas duas pedras
deixei-os sonhando.

E elas, as pedras, sorrindo,
zombando, como fazes tu
todas as vezes que vindo, meus pés intimidados
desejando te alcançar, fogem ficando.

Para não ter que ir, mas sem querer ficar,
permaneço agora, ainda aqui
embora noutro lugar.

E sob o afago máximo de tu/as pedras
meus passos dormem
por ter esperar... vais, vens, vais
sem me adivinhar.


Tuparetama, maio de 2011

22/04/2011

ECOS

Esquecimento, se minto,
Da verdade do mundo não ouço
Se não, um suspiro sinal
Da verdade do mundo corri perseguido
E se ouso, percorro seus passos
Da verdade do mundo não posso
Sou moço, sou muito, se minto
Esqueci.
Esquecimento, se mortos
Da verdade do mundo não peço
Se sim, um sinal em retiro
Da verdade do mundo prosseguir
E se ouso, dessa cor meu espaço
Da verdade do mundo não caço
O segredo da prova que visto
E alongado no teu vasto em aço
Aqueci.
Aquietei.
Esquecimento, se lento
Sigo o teu hálito e dentro
Esqueço e tento
a verdade
mudo
mundo
um
do
o