29 de nov de 2010

ANOTAÇÕES EM 1992

Anotações 1
Falemos de outros meios. Há mundos e mundos
e tantos modos de vê-los e revelá-los!
falemos de outros casais 
e das suas outras filosofias,
outras maneiras, outras saídas, outras asneiras, 
outras políticas, outras mentiras.
Falemos das novas verdades dos outros 
e dessas amenidades que tentamos afastar da nossa casa.(03.08.91)

desenho: Tárcio Oliveira/2010

Anotações 2
Construir paredes é simbólico?
Abraçar o céu é simbólico?
Tua dança tal fumaça em redes 
qual signo traz a mim
que de tudo vivo incréu? (11.08.92)

Anotações 3
Meu amor dispensa lógica, raciocínio, compreensão e saber.
Dispensa até mesmo vontade inconsciente.
Como bate o coração do menino mais comum
-simples e autônomo- Ele será.(12.08.92)

22 de nov de 2010

ERA VIDRO E SE QUEBROU

A poesia desistiu de nós dois.
Não quer ficar se intrometendo em nossas vidas.
A poesia foi, bateu a porta, disse adeus.
E eu já não vejo graça em ficar te vendo
E tu já não me vês como vias, poesias.


A poesia tem mais com quem ficar
Tem mais o que fazer, não quer perder
Seu tempo assim sobrando entre nós dois.
E eu já me conformei, aliviado
Sem poesia que graça tem, estar ao teu lado?

A poesia não está mais aqui
Por isso nem isso que digo, nem aquilo que escrevo
Tem, ah não tem não, alma ou sangue ou coração.
E eu já não sinto inspiração em ficar te tendo
E tu já não me usas, como antes, musas.

Imagem DAQUI

21 de nov de 2010

COMPOSIÇÃO COM FIGURAS

A casa de madeira que fiz das tuas idéias
não vence
a tormenta.
O telhado de vidro que imita teus sentidos não iluminou
meu calendário
e seus dez, doze encontros.

Eu quis fazer então da casa um barco
e do vidro um rio.

Por que você não esteve aqui, comigo nessa viagem?

Em fuga afinal
com ou sem você que diferença faz
nesta minha melancólica romança?

(01.10.92)
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imagem DAQUI
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20 de nov de 2010

ESTETA


Eu quero a tua coragem para vestir depois do banho
depois de lavada a falsa fadiga dos dias sem perspectivas.
A tua coragem como luva cirúrgica, como creme
depois de dispersa a sombra do símbolo que tingiu minha parte
e nela contido quase como gema no ovo
ir gerando essa ave.

(01.10.92)
imagem DAQUI

SONETO MAL MEDIDO


As quase trinta lembranças do desejo
vão morrendo em mim como degraus de escada.
Desejo regride com a passagem do tempo:
cães ladrindo pra caravana quebrada.

Das quase trinta lembranças o que vejo
hoje em mim são objetos gastos.
Todas as portas estão inutilmente abertas
a esses territórios vários e vastos

do pensamento. Nenhuma via traz respostas certas
só o fingimento livra-nos das descobertas
de tantas aflições nesta existência vã

abomino os desejos que caem qual feridas
em cicatrizes sem nome vão ficando retidas
formando a pela da alma egocêntrica ímã.

(04.08.91)
imagem DAQUI

17 de nov de 2010

DA ADVERTÊNCIA E DA CONSOLAÇÃO


Longe dos princípios os precipícios
Depois e antes dos fins os inícios

Eu trouxe palavras quase doces para meu convívio
porque havia em mim como que um dente nascendo
entre os lábios para morder a face do mundo


(03.08.91)
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imagem daqui

ASMA


Todas as coisas "ao mesmo tempo agora" minha cabeça quer explodir
meus olhos ardem de sono
meu corpo de fome
meu peito de saudade...
respiro fundo como um afogado que quer aprender a nadar – e salvar-se-
na última hora. Mas cai, caio, caio....
cadê a mão que não encontro ao meu lado
para me puxar acima da correnteza e me levar para a margem?

Estou sem ar
meu fôlego é o tempo e ele está cada vez mais curto!
24 horas apenas? Asfixia braba!
Quero um balão de oxigênio: +tempo+tempo+tempo+tempo....

Meu pensamento rodopia acelerado,
entra e sai de mil corredores dentro da minha cabeça.
Eu quero um travesseiro,
eu preciso de um cafuné,
eu estou cansado demais para acordar amanhã tão cedo...
Meus ossos pedem rede,
minha boca pede leite,
meus desejos pedem um dono.

Por que você não vem me buscar agora?

Vamos fugir, eu preciso fazer alguma coisa irresponsável.
Minha tia dizia: “cabeça vazia, oficina do diabo”
Nada, tia, cabeça cheia é que é um parque de diversão do demo.
Coração vazio, isso sim, oficina do diabo,
o diabo a quatro fazendo da gente gato, sapato e pão azedo.

Minha pessoa quer explodir.
Saiam da frente, depois de amanhã não respondo mais por mim.
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[Tuparetama - abril de 2004]
imagem DAQUI
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16 de nov de 2010

PERMANENTANTECEDER


Antes do acontecer, entre a ponte e toda estrada atrás
pequenos esquecimentos alinhavando restos de palavras
signossinais, pequenos alumbramentos, restos de passagens atrás
restos sedimentos toda acomodação e a incerteza de tudo
depois despertar [  pois há ] o barulho e as as luminescências desse
permanentanteceder, antes do passado, a saudosa estrada que se desdobra sólida
a diante, diante, adiante, adante, andante, ante, antes do acontecer, já ter sido.


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imagem DAQUI

15 de nov de 2010

OUTRA CANÇÃO INDESEJADA















Desandamos a nos desperceber
mãos desatadas, um olhar aqui outro acolá
desistimos.  Diante da porta nem vôo nem volta

Passo

Permaneces

Deitamos em meu pensamento pesadas tábuas
da escada ao fosso.  Afundo à superfície
um pé aqui outro acolá

Permaneço

mas tu - até quando é nunca mais? - não estás...

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