29 de dez de 2010

DÁ-ME CÁ MEU DESTEMPERO

Pertencemos ao tempo e somos
as pedras soltas que delimitam seu percurso

O que nos move pelo acaso
é o sopro incerto da fantasia

Hoje eu sei quanto tenho
Amanhã já não tenho nada do que fui

Ontem juntamos num abraço nós dois
Passageiros em tudo, todos: nós, o abraço, o querer

Dissolve-se nossa existência metodicamente
na roda caótica dos segundos

[ Pedra irregular e dissoluta. Templo
Ir, regular.
E esta poeira que nos rodeia, ela a tal eternidade? ]

[]

23 de dez de 2010

DO DIÁRIO

Em novembro encontrei sossego
após caminhar dias longos como teus cabelos.
Encontrei um pouso, deitei em silêncio
e sonhei teu peso nos meus braços.

Em novembro encontrei o rio
encontrei a sede que a água aguarda
e comi do fruto de tão doce tez...

E das lembranças em desperdício, de ti
eu suei, meus pés doíam e doíam os ossos
muito menos que a pele morta de tanto sol.

Em novembro eu pensei comigo: tu que me aguardas
que estarás trançando entre os dedos
que estarás soprando entre os dentes?

E o vento cuspia em mim o calor e o pó cego dos longos dias como os teus chamados.

(17.01.92)

9 de dez de 2010

ESTA CANÇÃO SERVE PARA VOCÊ?

Espero dentro de minha saudade a chave secreta da passagem
Espera longa e bordada de desassossegos intermitentes
Pois se te imagino à porta encerrada do meu peito
Ou se ouço tua voz e a confundo perto, estando incerto
Permaneço, espero, continuo... não vens ainda

[A chave secreta que trarás contigo da passagem
Espero dentro da úmida saudade que resfria meu peito]

Mas se te imagino vindo e olho, penitente, sem que venhas
Mas quando te ouço e me agito, súbito, nem que seja tua voz
Contínuo permanecer espera-me à sombra pungente da vontade
E enquanto tudo possa tarde ou antes fechar-se em nada
Possa eu ainda assim crer que tens pra mim

A chave secreta da passagem

[]

imagem DAQUI

6 de dez de 2010

RETRATO INCERTO

As dúvidas são minhas irmãs.
Elas são minha mãe e meu pai.
Estão em mim como primeira pele.

Correm comigo como quatro pés, como três pés
este tripé. Às vezes tão firme que aterra!

As dúvidas são meu sangue.
Elas moram comigo dentro dos meus labirintos.
Alojam-se nestas veias salientes corredores.
Elas são meus óculos.
Estão nos tecidos da minha roupa.
Eu as vejo - porque me perseguem- em tudo. Que existe ou tenta existir.

(24.08.92)
imagem DAQUI
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